segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Carta número 6

Olá, criança amada!

Hoje tenho novas reflexões para deixar para você. São reflexões que fazem parte de aprendizados que seu pai vem tendo em sua vida de adulto jovem (já não tão jovem assim). Viver é algo fabuloso, criança. Exerça sua vida da melhor forma que consiga! Tente isso sempre: ser seu melhor! Deixo aqui então algumas reflexões e espero que elas te sirvam de alguma forma.

Percebi que a vida é estranha naquilo que ela tem que ser, criança. Entendemos nada de quase tudo! Muito provavelmente você sentirá isso um dia! Não temos controle de praticamente nada! Em meio ao viver, nos pegamos diversas vezes sob escombros das coisas que ocorreram em nosso passado e tentando limpar os nossos caminhos para enfrentar as adversidades que virão no futuro. O presente da vida é isso, esquivar-se de escombros do passado que tivemos e tentar abrir caminhos para a passagem dos novos tempos com suas coisas boas e também suas coisas ruins. A vida é feita disso: momentos bons e ruins. Não há vida perfeitamente feliz, nem há vidas fadadas à infelicidade - entendo bem! Tudo passa! Quando dizem isso, os que o dizem têm toda razão, criança.

Em meio à realidade de nossas existências, filho, somos protagonistas na maior parte das vezes dos acontecimentos de nossas vidas. Outras vezes, os acontecimentos vêm e nos deixam sob novos escombros sem nem mesmo termos percebido em tempo a chegada dos fatos novos. Não raro, também, a vida se manifesta com outros protagonistas dentro de nossa própria vida, e nós, nessas horas, ficamos como coadjuvantes do cenário da vida que temos que levar adiante apesar de quaisquer coisas. 

Não serão poucas as vezes que vamos querer chorar, em desespero e angústias, filho, mas entre sermos protagonistas em nossos dias e coadjuvantes nos fatos ocorridos, fica uma coisa perene: nós estamos sempre presentes diante dos todos os ocorridos em nossas existências! Estaremos sempre junto de cada acontecimento bom ou ruim de nossas vidas. Entende, criança? Portanto, temos de estar em nossa melhor forma para atuar diante das coisas, sendo protagonistas, sendo coadjuvantes, tanto faz... Prontos para agir da melhor forma que pudermos ser! Compreende? Esse é um aprendizado que parece óbvio, mas é de difícil execução. Somos sempre tentados a desanimar e acreditar que não temos forças suficientes diante das nossas vidas - fato esse que é um equívoco tremendo quando caímos nele. Os males da depressão, p.ex., se dão por inadaptação a esse aprendizado. Perceba bem. Reflita. Somos sempre participantes diretos de nossos males e de nossas alegrias. Somos capazes, sempre, de mudar nossos destinos - tanto para melhor quanto para pior, sei bem.

Os escombros do passado por vezes ficam conosco a atrapalhar os caminhos por todo o resto de nossas vidas. Eu lhe digo que percebo isso em diversos momentos de minha vida. Junto a isso, não raro, vagamos meses, anos, por sobre escombros de um passado que morreu e não percebemos. Ficamos ali tentando colecionar relíquias de uma vida que já passou, já se foi. Temos de tomar cuidado com isso! Escombros do passado servem para que entendamos que eles são restos, resíduos, escombros, ora! Não podemos tentar edificar novas construções para o nosso futuro a partir de escombros de um passado. Basta de ficarmos tentando juntar pedaços entre os escombros do passado para edificar novas construções para nos abrigarmos no futuro, filho. Não! Isso não pode ocorrer! Temos que saber perder e deixar passar aquilo que já passou. Entenda bem e reflita bastante sobre isso. 

Quando enxergarmos escombros, precisamos deixar que eles fiquem para trás e devemos nos preocupar em manter nossos caminhos limpos de passado e de nostalgias para, enfim, podermos receber as novas coisas do presente de corpo e alma. Querer o passado de volta não é algo incomum entre nós, humanos. Somos nostálgicos! O que me espanta é que, nessa nostalgia, ainda mantemos algo de perplexidade como quem fica insatisfeito de não poder ter algo que sabidamente não existe e não lhe pertence mais. Caímos repetidas vezes nesse engano de sonhar com coisas que já se foram. Essa nostalgia somada à essa perplexidade podem nos atar as mãos, pés e nos prender na estrada da vida. Temos de ter cuidado! 

Nada que se foi volta, filho! O que passou e chegou a voltar (se for para voltar!) vem por conta própria. Ou seja: não se foi, de fato! Não será nosso hábito de vasculhar escombros que os fará voltar. Não, criança! Entenda isso: tudo o que é reservado para ser nosso um dia dá seu jeito de retornar a nós, independente de nós. Portanto, sabendo disso, não nos cabe ficar pensando e revivendo coisas do passado de forma insana e adoecendo-nos diante do presente e do futuro que se nos chega aos poucos. Cabe apenas vivermos o presente da melhor forma possível, sem medos, sem nostalgias, sem perplexidade. Cabe a nós recebermos os dias e as coisas com todo o melhor de nosso ser, com o que nos há de melhor em atitudes e pensamentos. 

Tentar ser sempre o melhor possível é algo que a vida tenta nos fomentar, nos ensinar em todo o curso de nossas existências. Precisamos ter coragem de romper as amarras e sair de junto aos escombros do passado! Precisamos manter nossos terrenos do presente limpos para colecionarmos e recebermos novas coisas que nos chegam a cada novo pedaço de futuro que se nos apresenta. Precisamos deixar passar as coisas que se foram e não temos mais controle sobre elas. Precisamos receber com o devido encantamento as novas coisas que nos chegam e que, de fato, podem ser fortes o suficiente para serem as coisas que teremos pelo resto da vida. 

Filho, quando algo virar escombros: deixe seus escombros no passado e siga! O que é para ser nosso há de um dia ser nosso - seja emergindo do passado, seja aparecendo livre e de forma inocente em nosso presente. Esse é um ensinamento que a vida me deu e tenho tentado aprender com ele ao máximo.

Espero que algo dessa carta lhe fique como lição útil.

Abraço apertado do seu pai,

P.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Carta número 5

Oi, querido filho!

Hoje tenho algumas reflexões para colocar para você. São coisas que passam pela cabeça de seu pai e que não sei se terei tempo de explicar a você no devido tempo. Então, tento deixar essa carta para que você conheça um pouco de mim e das coias que passam pela cabeça de seu cansado pai. Vamos lá...

Conheci vários "eus" durante minha vida, filho. Estavam todos comigo! Vez ou outra, um "eu" específico tomava conta dos demais "eus" e eu seguia sendo mais esse ''eu'' do que outros, como se dentro de mim houvesse sempre uma disputa de vários estágios de "eus" diferentes que queriam dominar a tudo dentro de mim... Nesses cenários de disputa, vários outros ''eus'' ficavam à espreita para poderem tomar conta de mim tão logo lhes fosse possível enquanto esse ou aquele outro ''eu'' virava protagonista por alguns dias, horas, semanas... Isso me fazia ter por vezes dias, horas e semanas bons ou, também, ruins. Dependia do "eu" que estava disponível para ser protagonista em mim.

Vivi sempre assim, filho: eu comigo e os ''comigos de mim" - tal qual Fernando Pessoa dizia de si mesmo. Por vezes, fui corajoso. Outras tantas vezes fui temeroso, cheio de neuroses e inseguranças. Em outras épocas fui um jovem de frases contundentes e cheio de si. Hoje, nem sou mais tão novo, mas também ainda não sou velho, filho. Sou hoje uma mistura talvez mais homogênea de todos os ''eus'' que fui e sou. Nem tão corajoso, nem tão medroso, nem tão cheio de si, nem tão descrente de minhas próprias capacidades e habilidades humanas. Isso, a bem dizer, é normal, filho. A trajetória da vida é de autoconhecimento, acima de tudo. Busque conhecer mais de si e dominar mais de si, sempre. Não passe a vida desconhecido de si mesmo. Tudo bem? Na sociedade dos tempos de seu pai, poucos são aqueles que se esmeram em se autoconhecer. Boa parte da sociedade contemporânea de seu pai está entretida em parecer algo mais do que em, de fato, ser algo. Isso é ruim e não leva a autoconhecimento nenhum.

De minha parte, sou um emaranhado de ''eus'' que tentam tomar espaço comigo, em mim! Tento fingir que tenho segurança e controle por sobre todos os ''eus'' que encontro dentro de meu ser, mas, não raro, fracasso e acabo caindo nas garras de um ''eu'' menos feliz e mais introspectivo que me coloca abaixo das expectativas que eu insisto em ter para mim mesmo. Nessas horas, o "eu'' corajoso que fui fica submerso num mar de metafísica e sonhos por serem conquistados, sem respostas e sem conquistas, mas sonhos esses que encontram-se presos aos tentáculos dos medos que crio e me consumo neles. Fico submerso, é fato, em vários momentos, sobre um amontoado de receios, medos, inseguranças e tristezas. O medo, filho, tem algum valor, mas a covardia nunca. Gandhi falava isso. Tenho para mim como uma verdade, mas confesso que não é incomum seu pai se deter por medos, sendo covarde. Não repita esse erro na sua vida, filho. Não seja, nesse aspecto, como seu pai. Vença sempre seus medos. Não se detenha sendo covarde diante da vida.

Em meio a isso tudo, o maior medo que tenho é de perder, de alguma forma, para mim mesmo nessa luta de "eus" dentro de mim e lutando comigo. Quem será a essência do "eu" maior que há em mim? Quem me domina: um "eu" frágil ou um "eu" dono de si? Ainda não sei ao certo. Pode ser que seu pai ainda seja jovem demais para ter a solução para esse mistério. Pode ser, entretanto, que eu esteja já velho demais e a conclusão já tenha passado diante de mim como um cavalo selado que eu não montei...

Pode ser que tudo acabe e seu pai morra sem conhecer o "eu" maior que há dentro dele ou a essência do "eu" que sou, filho. Mas, será que sou tão diferente dos outros nessa sociedade onde vivo que mal sabe o que quer? Não sei, filho. De minha parte, fico eu aqui comigo e com os "comigos de mim", enquanto tento preparar, contribuindo com a minha parte, um mundo melhor para você, querido filho. 

Até.

Esteja bem e forte, sempre. 

Abraço de seu pai,

P.