segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Carta número 3

Querido filho,

Cá estou eu, seu pai, novamente sem entender o tempo meu. Fico feliz pelo fato de ainda não teres nascido. Eu sofreria ainda mais se soubesse que você já estava exposto aos dias meus.

Hoje, filho, acordei e fui ler os jornais. Sim, ainda leio jornais. Não trago mais tanto prazer nisso, mas desconfio que ainda é importante. A mídia, seja impressa ou outra forma dela, nos dias meus, é horrenda. Vendida, sabes? Tu te tornarás sábio, filho, se desde cedo souberes entender as influências do dinheiro e do poder, das corporações e seus interesses, na opinião alheia. Não é diferente na opinião dos jornalistas ou aqueles que se dizem assim.

Seu pai, querido filho, vive em dias estranhos. Pode ser que todos os pais que até hoje existiram achavam que seus respectivos tempos eram o pior possível, mas quem sou eu para sabê-lo? Sei apenas que o tempo meu é péssimo e em tanto me assusta.

Voltando ao fato de seu pai ter lido os jornais, a primeira página já insinuava que algo podre estaria ali dentro. Sim! Uma cobertura somente voltada às catástrofes, às desgraças (não fale essa palavra quando fores grande, muito menos quando pequeno - sua mãe não irá gostar). Aparentemente, nos tempos de seu pai, o sofrimento dá dinheiro para muita gente. Raras são menções a coisas boas, pessoas de bem. Algo assim. Aparentemente também seria preciso comprar um espaço nos jornais para divulgar coisas boas, mas seria caro, não concorda? Acho que seu pai não conseguiria. Não há, é fato, muito interesse pelo bem nesses tempos, filho. Perdão por seu pai não conseguir fazer algo diante dessa realidade.

No mais, meu filho, quando fores dormir, ore. Ore sempre. Por mais que não saibamos se há algo etéreo, metafísico, algo assim, aquilo que chamamos de Deus, entenda: há necessidade dEle existir. Por qual motivo haveria de, do nada, tudo existir e termos atingido esse estágio de aprendizado tão atroz, sem propósito? Creio que estamos numa escola e que esses tempos de iniquidades são parte de um ensinamento que não conseguimos entender ainda. Então, peço, filho: ore sempre.

Estarei sempre orando por ti. 

Beijos e abraços do teu pai que desde já o ama tanto.

P.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carta número 2

Querido filho,

Perdão ter passado tanto tempo sem escrever. De forma alguma foi por esquecimento ou desleixo. Não. Seu pai simplesmente esteve muito adoentado. Ainda estou doente, mas por ora meu estado me permite escrever coisas e destiná-las a você.

Espero que o mundo para além dos dias de seu pai se torne melhor, filho. Deus, se por acaso foi Ele quem criou tudo, acho que deveria ter trabalhado também no sétimo dia. Dizem que descansou... Não sei bem, pois seu pai não é um devoto, filho, porém afirmam com certeza que Deus descansou no sétimo dia após trabalhar por ininterruptos seis dias anteriores. Será que esse momento de deleite ao ócio foi momento em que o tal diabo aproveitou-se para adoentar a crianção de Deus?

Não consigo entender como, em sendo o homem imagem e semelhança dEle, poderiam os homens serem tão maus, cruéis... Pode sim ter havido interferência do diabo no tal sétimo dia, filho. Quem sabe, nos seus dias pela Terra, já tenham descoberto mais sobre essa minha teoria?

Filho, seja bom, acima de tudo! Pense sempre se o que vier a fazer está ou não a causar prejuízos a outrem. Caso haja prejuízos assim, abstenha-se de agir. Espere momento ou oportunidade outra de escolha. Nunca prejudique quem quer que seja, filho. Seu pai pode sim ter errado muitas vezes, mas não quero que repita meus erros ou os erros daqueles que são da geração de seu pai. Opte sempre pelo bem seu, mas ladeado ao bem alheio - o bem total, social, a bem dizer. Se for rico em matéria, divida suas riquezas com quantas pessoas você consiga. Se for sábio, divida seus conhecimentos. Se for alguém satisfeito quanto à tua fome, divida teu pão. Mesmo se for um ser solitário, divida sua companhia - não poderia deixar de dizer isso também. Seu pai tem sido muito solitário. Isso não causa bem algum. Mas você poderá fazer diferente.

Já tentei estar presente junto de pessoas para as quais eu me julgava importante, mas não o era. Numa espécie ingênua de carência, filho, fui apenas útil fazendo da minha doação um pedido desesperado por ser amado. Seja importante, filho, mas não aceite ser apenas útil. Você merece tudo de melhor e sei que dará todo o seu máximo para ser verdadeira companhia na solidão (e escuridão) em que as pessoas do mundo se encontram.

Filho, o homem é, antes de tudo, um ser social. Precisa de outros rostos, vozes, sorrisos e lágrimas ao seu redor para seguir são e salvo. Não permita-se à solidão, criança. Ela traz desesperança - e a desesperança pode te levar irremediavelmente à ela. Permita-se, sim, ausentar-se da presença alheia por vezes, mas volte, sempre volte. Nunca insista em estar só, pois, assim estando, estará parado no tempo. Caminha mais quem tem outros por seguir ou segui-lo. Ver mais alguém que, de fato, esteja dedicado a estar do nosso lado é algo motivador e, sim: é muito importante que você encontre pessoas que te façam sentir assim e que as faça sentir assim também, tenho certeza. Dê atenção à influência que causes e que te causam, criança. Saiba diferenciar utilidade de importância. O que de fato é importante, assim o é sem necessidade de explicações. Tantas vezes parece inútil. Mas fique isso para outro momento.

Ademais, seja feliz e faça felizes seus próximos. E até breve, filho.

Beijos do teu pai que, mesmo sem conhecê-lo, tanto te ama.

P.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Carta número 1

Querido filho,

Hoje acordei sem muitas esperanças. Sim! Pode ser que contem a você o quanto os dias de seu pai são difíceis. De fato, não quero enganá-lo: o são! As pessoas dos dias de hoje são demasiadamente egoístas, habituadas a serem hipócritas. Ostentam uma personalidade boa, um poder, um estado social que na imensa maioria das vezes não correspondem à realidade. Filho, fico feliz que não tenha nascido ainda!

Após levantar da cama, lembrei-me de um cartunista muito genial, argentino, Joaquín Salvador. Seu apelido e sua assinatura da obra eram dados por: "Quino". Um personagem seu, imensamente genial como ele próprio, chama-se Mafalda. Uma menininha que adora refletir sobre o mundo. Estou resumindo, entenda... Ela acorda um dia e afirma que por vezes é difícil acordar e "descer ao mundo". Sim, filho! Por vezes tem sido assim. Espero que no dia em que estiver adulto, as coisas sejam lindas como sonho para você. 

O mundo de paz, harmonia, gentilezas e amor, ou seja: o mundo feliz que sonhamos hoje, sonharam ontem e creio ainda será nosso sonho, não nos chegou, filho. É difícil, mas tenho que te contar: seu pai, assim como os outros anteriores e atuais a ele, falhou. Tenho errado, filho! Há tantas coisas por fazer. Tanto a melhorar, mas não tenho conseguido construir o mundo adequado a você. Por favor, não se zangue, mas estou lutando, dando meu melhor - mas, confesso, estou muito aquém e o mundo não vai bem...

No mais, filho, esse é nosso primeiro contato.

Espero poder conversar mais vezes, muitas vezes com você.

Ansioso pelo amanhã, despeço-me de você e deixo cá meus beijos, filho.

P.