quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carta número 2

Querido filho,

Perdão ter passado tanto tempo sem escrever. De forma alguma foi por esquecimento ou desleixo. Não. Seu pai simplesmente esteve muito adoentado. Ainda estou doente, mas por ora meu estado me permite escrever coisas e destiná-las a você.

Espero que o mundo para além dos dias de seu pai se torne melhor, filho. Deus, se por acaso foi Ele quem criou tudo, acho que deveria ter trabalhado também no sétimo dia. Dizem que descansou... Não sei bem, pois seu pai não é um devoto, filho, porém afirmam com certeza que Deus descansou no sétimo dia após trabalhar por ininterruptos seis dias anteriores. Será que esse momento de deleite ao ócio foi momento em que o tal diabo aproveitou-se para adoentar a crianção de Deus?

Não consigo entender como, em sendo o homem imagem e semelhança dEle, poderiam os homens serem tão maus, cruéis... Pode sim ter havido interferência do diabo no tal sétimo dia, filho. Quem sabe, nos seus dias pela Terra, já tenham descoberto mais sobre essa minha teoria?

Filho, seja bom, acima de tudo! Pense sempre se o que vier a fazer está ou não a causar prejuízos a outrem. Caso haja prejuízos assim, abstenha-se de agir. Espere momento ou oportunidade outra de escolha. Nunca prejudique quem quer que seja, filho. Seu pai pode sim ter errado muitas vezes, mas não quero que repita meus erros ou os erros daqueles que são da geração de seu pai. Opte sempre pelo bem seu, mas ladeado ao bem alheio - o bem total, social, a bem dizer. Se for rico em matéria, divida suas riquezas com quantas pessoas você consiga. Se for sábio, divida seus conhecimentos. Se for alguém satisfeito quanto à tua fome, divida teu pão. Mesmo se for um ser solitário, divida sua companhia - não poderia deixar de dizer isso também. Seu pai tem sido muito solitário. Isso não causa bem algum. Mas você poderá fazer diferente.

Já tentei estar presente junto de pessoas para as quais eu me julgava importante, mas não o era. Numa espécie ingênua de carência, filho, fui apenas útil fazendo da minha doação um pedido desesperado por ser amado. Seja importante, filho, mas não aceite ser apenas útil. Você merece tudo de melhor e sei que dará todo o seu máximo para ser verdadeira companhia na solidão (e escuridão) em que as pessoas do mundo se encontram.

Filho, o homem é, antes de tudo, um ser social. Precisa de outros rostos, vozes, sorrisos e lágrimas ao seu redor para seguir são e salvo. Não permita-se à solidão, criança. Ela traz desesperança - e a desesperança pode te levar irremediavelmente à ela. Permita-se, sim, ausentar-se da presença alheia por vezes, mas volte, sempre volte. Nunca insista em estar só, pois, assim estando, estará parado no tempo. Caminha mais quem tem outros por seguir ou segui-lo. Ver mais alguém que, de fato, esteja dedicado a estar do nosso lado é algo motivador e, sim: é muito importante que você encontre pessoas que te façam sentir assim e que as faça sentir assim também, tenho certeza. Dê atenção à influência que causes e que te causam, criança. Saiba diferenciar utilidade de importância. O que de fato é importante, assim o é sem necessidade de explicações. Tantas vezes parece inútil. Mas fique isso para outro momento.

Ademais, seja feliz e faça felizes seus próximos. E até breve, filho.

Beijos do teu pai que, mesmo sem conhecê-lo, tanto te ama.

P.

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