Querido filho,
seu pai tem passado por um período muito nebuloso. Só hoje ele consegue ver o quanto já sofreu sem saber a origem dos seus sofrimentos. Filho: seu pai tem depressão!
Por anos e anos, seu pai sofreu com esse mal. Na atualidade do tempo de seu pai, enquanto escrevo, um em cada três cidadãos do meu mundo sofre desse mal que é chamado hoje: ''mal do século''. Seu pai não é um privilegiado nem um desprestigiado. É o ''um'' dos ''em cada três''. Não entenda mal.
Como foi que descobri isso, filho? Descobri nos tempos idos dos meus quinze a dezesseis anos de idade. Cheguei na época a ficar sete dias sem quase sair da cama. Passavam pensamentos péssimos de sofrimentos variados na cabeça de seu pai. Ele temia sofrer e ver seus amados sofrendo. Sofria demais por pensamentos enviesados que lhe vinham na cabeça sempre para o fazer sofrer. Naquela ocasião, ele precisou de antidepressivos, além de idas à terapia, recorrendo à ajuda de médiuns e passistas - seu pai é espírita, lembre-se! E consegui vencer naquela época esse mal.
Fiquei longos quatro a cinco anos muito bem, percebo. Conseguia ignorar pensamentos ruins e tinha uma enorme fé de que tudo daria certo, sabe? Isso é essencial. Ter um ''capacete de esperança'' te protegendo dos ataques da lida, sabe? É uma metáfora boa, não? Ela foi cunhada em um texto do livro ''Fonte Viva'', ditado por Emmanuel ao médium Chico. Acho que você deveria guardar esse livro. Se quiser, o leia.
Relembro os tempos idos até meus vinte e poucos anos e não encontro males como os que havia sido vitimado antes. Porém, não sei quando, nem sei bem o porque, mas comecei a ser atormentado gradativamente pela falta de esperança e sensações de desesperança, creio eu, a partir dos meus vinte e três a vinte e quatro anos. E, com toda certeza, a partir dos seus vinte e cinco anos seu pai estava de novo adoecido. Mas não consegui perceber isso. Fui vivendo, tendo amizades, relacionamentos, compromissos e combates adoecido. Fui vencendo a vida dia após dia carregando um fardo que eu não valorizei a ponto de me entender doente e precisando de ajuda.
Quando estava com meus vinte e sete anos, tive talvez o pior momento da minha vida. Estando mal, triste sem uma causa evidente, sem esperanças para nada, desconfiando de que o mundo era um imenso cenário de maldades, barbárie e desesperança, cheguei a ficar trinta e dois dias sem sair de casa. Antes disso, como eu já trabalhava, larguei meus empregos e comecei a ficar só em casa. Acho que foi um erro enorme. Vejo hoje. Deixei a cabeça ser atormentada vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, por pensamentos e sensações ruins, afinal: eu não usava mais minha cognição e minhas aptidões para nada a não ser ficar em casa pensando. E caí! Caí feio,
Quando me reergui, achei que estava bem, mas não. Estava apenas ''de pé'', digamos assim. Fiz besteiras em cima de besteiras. Briguei com pessoas. Eu andava muito irritado e inquieto. Sem perceber, culpava tudo e todos de meus males. Achava que ninguém merecia minha confiança nem meu amor. Achei que o amor não existia. Achei que esperança era algo que contavam às crianças para que não desanimassem diante de seus medos. E eu mesmo desanimei.
Como estava ''de pé'', todos passaram a ver o que era mais fácil: ''ele está bem melhor agora!'', diziam. Mas eu sabia que não, embora tentasse fingir-me forte. Inclusive, para raras pessoas contei que havia ficado os tais trinta e dois dias sem sair de casa. Seu pai tinha vergonha e medos de falar de si mesmo. Achava que me tornaria vulnerável aos olhos alheios? Acho que pode ser isso. Mas nunca saberei os motivos.
Seu pai então entrou na profissão dele de cabeça. Tentou dedicar-se especializando-se e estudando. Mantinha um funcionamento razoável. Uma proficiência significativa a ponto de conseguir algum carinho e atenção de chefes e colegas, mas comecei de novo a me perder e a enfraquecer. Faltei dias de trabalho. Tive de contar com a tolerância e paciência de colegas e chefes. Mas enfrentei e venci. Formei-me especialista - a duras penas, sei bem. Contei com o apoio de chefes, colegas e de Deus - sei bem. Pois fui forte de maneira que só hoje consigo enxergar. Mas segui ainda sem dar créditos suficientes à necessidade de tratamento.
Não pense que seu pai não procurou ajuda. Sim, seu pai era muito orgulhoso, mas não tanto. Procurou uma meia dúzia de profissionais de psicologia ou psiquiatria, mas nunca com sorte. Ninguém o tocava a ponto de fazê-lo pensar o mundo e a vida de forma diferente. Ele ia sofrendo e tomando remédios. Entregou-se, inclusive, ao álcool e aos cigarros de tabaco, sabe? Infelizmente seu pai sofria demais e não sabia os porques, nem conseguia achar melhora ou cura. E segui caminhando até que, formado, especialista já, retornou aos trabalhos de forma quase desacreditada. Eu trabalhava no máximo dois dias por semana. Algumas semanas conseguiu trabalhar três dias, mas nunca mais que isso. Via que não conseguia ir bem o quanto eu queria ir e me decepcionava. Seu pai sempre cobrou muito de si mesmo. Isso me fazia sofrer.
Resolveu voltar para a cidade onde nasceu. Foi trabalhar perto dos pais e amigos achando que conseguiria encontrar rumos novos e bom ânimo, mas não conseguiu. Falhou nisso. Tão mal se sentia, largou tudo. Voltou para a capital e ficou sem trabalhar por quatro meses. Sem receber salários, sem trabalhar, triste e cabisbaixo, tinha que contar com o máximo de paciência de todos em volta - mas nem todos conseguiam ver o quão mal seu pai estava. De fato, seu pai sempre tentava fingir ao máximo que conseguia que estava bem. Ele enganava a muitos assim.
Quatro meses sem trabalhar, chegava a ficar dias sem colocar os pés para fora de casa. Não gostava de receber pessoas. Não gostava de nada. Queria sempre estar sozinho e jogado na cama ou no sofá. Sentia pena e ódio de si mesmo, ao mesmo tempo. Mas não tinha forças para acreditar em si e mudar em definitivo, colocando um novo rumo à sua vida. E olha que ele planejava mudar de casa, construir um lar e até ter um cachorro, mas todos os sonhos passavam apenas como devaneios. Para seu mal, seu pai acreditou que não conseguia mudar em nada sua vida.
Ao longo de todo esse tempo, já algo em torno de cinco a seis anos de doença continuada, seu pai pensou em se matar diversas vezes. Pensava em como fazer isso, mas sabia o quanto destruiria seus avós. Daí, tentava mudar de pensamentos, mas a vontade vinha diariamente por períodos longos. Não raras vezes, ele arriscou-se correndo de automóvel nas estradas ou saindo tarde da noite sem rumos para caminhar. Se morresse por ''acidente'', seria uma solução - eu pensava. E assim seu pai foi vivendo.
Somente quando completara trinta anos foi que conseguiu a sorte de, através da indicação de um amigo, ir a um psiquiatra que fez toda uma abordagem diferenciada em medicações e orientações. Seu pai, enfim, conseguiu sentir-se bem. Sob medicações, mas sentia-se bem. Começou a trabalhar. Chegou a trabalhar por 4 dias seguidos, semanalmente. Agradecia estar trabalhando ''tudo aquilo''. Voltou a sentir-se orgulhoso de si, com alguma autoestima. Pronto! Tudo parecia caminhar para uma cura eventual ou um longo período de felicidade, mas a vida deu uma rasteira em seu pai. A pessoa em que ele dividia a vida, confidências e mais confiava que não o machucaria nunca: o machucou! E ele caiu. Caiu feio. E, depois disso: eis seu pai aqui escrevendo.
Então, filho, peço-te: em seu tempo, observe as pessoas e a si mesmo. Não deixe tristezas contínuas passarem como ''normais''. Não! Normal é estar feliz, trabalhando, brincando com amigos, sorrindo em bares e restaurantes ou praças públicas. Anormal é estar em casa sem querer ver ninguém ou coisa alguma.
Ouça bem o seu pai: nunca tema medicações quando estiver doente. E entenda medicações como toda forma de ajuda que te ''prescreverem''. Entenda isso desde a pílula qualquer que deve ser tomada ao seu respectivo horário, mas também aos exercícios de autoconhecimento a que as filosofias religiosas se prestam.
Ame muito as pessoas, mas nunca crie expectativas. Tente confiar, filho, em todos. Mas não seja tolo como seu pai. Tentando ser bom e ético, confiei sempre nas pessoas, demais, confiando que todas exigiriam de si o máximo para que nunca machucassem ninguém. Mas boa parte das pessoas ainda não pensa nos outros ou no todo num primeiro momento. Boa parte opta por pensar primeiramente em si (não raro, pensam unicamente em si). Mas esse é o jeito que essas pessoas têm de agir. Então: não as culpe, mas nunca se deixe ser igual a elas. Magoar alguém é terrível, filho. Não se permita fazer isso nunca. Se, por um acaso ou um azar de desatenção, um dia você cometer um erro que marque alguém, peça perdão e entenda seu erro, o assuma e aprenda com ele para nunca mais errar.
São as palavras que, hoje, seu pai tem para te passar.
Espero que estejas bem, onde estiveres.
Amo você; não se esqueça de seu pai - mesmo ele sendo tão patético aos olhos de tantos. Combinado?
Deixo aqui um sorriso e meu abraço, com um beijo de todo o amor que tenho para você.
P.