terça-feira, 11 de agosto de 2020

Carta número 7

Querida criança amada, hoje venho te falar um pouco sobre o preço da liberdade. Sim! Liberdade! Não digo apenas sobre o direito de ir e vir. Não! Isso é apenas parte. A liberdade da qual queria conversar com você é aquela liberdade de sermos como somos, tentando ser da melhor forma que possamos ser, sempre; Entende? Tentarei explicar.

Nós nascemos, pequeno/a, e logo vamos tomando ciência das coisas. Aprendemos a agir da maneira que nos ensinam nessa ou naquela ocasião, nesse ou naquele contexto. Aprendemos! Isso é um fato. Somos ensinados sempre a agir, mas poucas vezes somos incentivados a pensar se o que fazemos e como o fazemos, nos faz mesmo felizes ou se poderíamos ser/estar sendo mais felizes se agindo de outra maneira.
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Em geral, nas questões sociais e humanas, não nos dão muitas escolhas. Somos ensinados que temos que estudar, formar na escola; entrar na faculdade, formar na faculdade; conhecer uma pessoa amada, casar, ter filhos, etc. Há todo um organograma que nos pregam/ vomitam na cara e aceitamos desde cedo. Mas seu pai tem pensado muito sobre o preço da liberdade de ser e agir como ache justo.

Seu pai é uma pessoa difícil em vários aspectos. Acredito em conceitos e preceitos e, quando creio em algo, sou difícil de ''dobrar''. Não consigo muito aceitar imposições, filho/a! Isso não sei se é um defeito ou uma qualidade, mas tenho sido assim. Sendo assim, já me indispus várias vezes com várias pessoas que quiseram exigir respostas de mim de acordo com os organogramas impostos pela vida social que disse acima. Tive já problemas quanto a isso. Pode ser que você também tenha. Queria poder esmiuçar meus aprendizados para que você os entendesse e observasse se te servirão um dia.

Quando digo sobre liberdade, digo observando não só a mim. Vejo que somos seres sociais, claro. Somos obrigados a viver em sociedade, gregários que somos. E isso nos obriga a fazer concessões; mas obrigatoriamente nos é um fado para a tristeza? Não! Podemos e devemos aceitar as condições que a vida social nos impõe, mas temos de trabalhar nossa felicidade nesse meio. Se estamos tristes, algo vai mal em nós, precisamos nos desprender do ponto onde estamos e nos olhar de fora. Não se vê a ilha estando na ilha... Já disseram. Como assim? 

Digo sobre tentar olhar a própria vida como se pudéssemos nos ver como outra pessoa ou "de fora"... Assim sendo, olhar e ver: somos felizes? Aparentamos felicidade ou somos felizes mesmo? Há todo um enorme trabalho que psicólogos e psiquiatras se esmeram em tentar executar junto de seus pacientes nesse aspecto.

Precisamos de terapia? Creio que todos precisam, mas temos que ser nossos terapeutas, também. Como seremos sinceros na terapia se somos ignorantes e obscuros diante de nós mesmos em nossos relatos? Precisamos nos ouvir e nos conhecer melhor, sempre; aí entra a questão do preço da liberdade... Mas tentarei falar sobre o quanto devemos e estamos dispostos a pagar por ela mais adiante. Ainda não aprendi a ponto de passar algo de certo.
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Beijos, minha criança amada.
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Seu pai te olha e olhará, sempre, de onde ele estiver. Você nunca estará só.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Carta número 6

Olá, criança amada!

Hoje tenho novas reflexões para deixar para você. São reflexões que fazem parte de aprendizados que seu pai vem tendo em sua vida de adulto jovem (já não tão jovem assim). Viver é algo fabuloso, criança. Exerça sua vida da melhor forma que consiga! Tente isso sempre: ser seu melhor! Deixo aqui então algumas reflexões e espero que elas te sirvam de alguma forma.

Percebi que a vida é estranha naquilo que ela tem que ser, criança. Entendemos nada de quase tudo! Muito provavelmente você sentirá isso um dia! Não temos controle de praticamente nada! Em meio ao viver, nos pegamos diversas vezes sob escombros das coisas que ocorreram em nosso passado e tentando limpar os nossos caminhos para enfrentar as adversidades que virão no futuro. O presente da vida é isso, esquivar-se de escombros do passado que tivemos e tentar abrir caminhos para a passagem dos novos tempos com suas coisas boas e também suas coisas ruins. A vida é feita disso: momentos bons e ruins. Não há vida perfeitamente feliz, nem há vidas fadadas à infelicidade - entendo bem! Tudo passa! Quando dizem isso, os que o dizem têm toda razão, criança.

Em meio à realidade de nossas existências, filho, somos protagonistas na maior parte das vezes dos acontecimentos de nossas vidas. Outras vezes, os acontecimentos vêm e nos deixam sob novos escombros sem nem mesmo termos percebido em tempo a chegada dos fatos novos. Não raro, também, a vida se manifesta com outros protagonistas dentro de nossa própria vida, e nós, nessas horas, ficamos como coadjuvantes do cenário da vida que temos que levar adiante apesar de quaisquer coisas. 

Não serão poucas as vezes que vamos querer chorar, em desespero e angústias, filho, mas entre sermos protagonistas em nossos dias e coadjuvantes nos fatos ocorridos, fica uma coisa perene: nós estamos sempre presentes diante dos todos os ocorridos em nossas existências! Estaremos sempre junto de cada acontecimento bom ou ruim de nossas vidas. Entende, criança? Portanto, temos de estar em nossa melhor forma para atuar diante das coisas, sendo protagonistas, sendo coadjuvantes, tanto faz... Prontos para agir da melhor forma que pudermos ser! Compreende? Esse é um aprendizado que parece óbvio, mas é de difícil execução. Somos sempre tentados a desanimar e acreditar que não temos forças suficientes diante das nossas vidas - fato esse que é um equívoco tremendo quando caímos nele. Os males da depressão, p.ex., se dão por inadaptação a esse aprendizado. Perceba bem. Reflita. Somos sempre participantes diretos de nossos males e de nossas alegrias. Somos capazes, sempre, de mudar nossos destinos - tanto para melhor quanto para pior, sei bem.

Os escombros do passado por vezes ficam conosco a atrapalhar os caminhos por todo o resto de nossas vidas. Eu lhe digo que percebo isso em diversos momentos de minha vida. Junto a isso, não raro, vagamos meses, anos, por sobre escombros de um passado que morreu e não percebemos. Ficamos ali tentando colecionar relíquias de uma vida que já passou, já se foi. Temos de tomar cuidado com isso! Escombros do passado servem para que entendamos que eles são restos, resíduos, escombros, ora! Não podemos tentar edificar novas construções para o nosso futuro a partir de escombros de um passado. Basta de ficarmos tentando juntar pedaços entre os escombros do passado para edificar novas construções para nos abrigarmos no futuro, filho. Não! Isso não pode ocorrer! Temos que saber perder e deixar passar aquilo que já passou. Entenda bem e reflita bastante sobre isso. 

Quando enxergarmos escombros, precisamos deixar que eles fiquem para trás e devemos nos preocupar em manter nossos caminhos limpos de passado e de nostalgias para, enfim, podermos receber as novas coisas do presente de corpo e alma. Querer o passado de volta não é algo incomum entre nós, humanos. Somos nostálgicos! O que me espanta é que, nessa nostalgia, ainda mantemos algo de perplexidade como quem fica insatisfeito de não poder ter algo que sabidamente não existe e não lhe pertence mais. Caímos repetidas vezes nesse engano de sonhar com coisas que já se foram. Essa nostalgia somada à essa perplexidade podem nos atar as mãos, pés e nos prender na estrada da vida. Temos de ter cuidado! 

Nada que se foi volta, filho! O que passou e chegou a voltar (se for para voltar!) vem por conta própria. Ou seja: não se foi, de fato! Não será nosso hábito de vasculhar escombros que os fará voltar. Não, criança! Entenda isso: tudo o que é reservado para ser nosso um dia dá seu jeito de retornar a nós, independente de nós. Portanto, sabendo disso, não nos cabe ficar pensando e revivendo coisas do passado de forma insana e adoecendo-nos diante do presente e do futuro que se nos chega aos poucos. Cabe apenas vivermos o presente da melhor forma possível, sem medos, sem nostalgias, sem perplexidade. Cabe a nós recebermos os dias e as coisas com todo o melhor de nosso ser, com o que nos há de melhor em atitudes e pensamentos. 

Tentar ser sempre o melhor possível é algo que a vida tenta nos fomentar, nos ensinar em todo o curso de nossas existências. Precisamos ter coragem de romper as amarras e sair de junto aos escombros do passado! Precisamos manter nossos terrenos do presente limpos para colecionarmos e recebermos novas coisas que nos chegam a cada novo pedaço de futuro que se nos apresenta. Precisamos deixar passar as coisas que se foram e não temos mais controle sobre elas. Precisamos receber com o devido encantamento as novas coisas que nos chegam e que, de fato, podem ser fortes o suficiente para serem as coisas que teremos pelo resto da vida. 

Filho, quando algo virar escombros: deixe seus escombros no passado e siga! O que é para ser nosso há de um dia ser nosso - seja emergindo do passado, seja aparecendo livre e de forma inocente em nosso presente. Esse é um ensinamento que a vida me deu e tenho tentado aprender com ele ao máximo.

Espero que algo dessa carta lhe fique como lição útil.

Abraço apertado do seu pai,

P.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Carta número 5

Oi, querido filho!

Hoje tenho algumas reflexões para colocar para você. São coisas que passam pela cabeça de seu pai e que não sei se terei tempo de explicar a você no devido tempo. Então, tento deixar essa carta para que você conheça um pouco de mim e das coias que passam pela cabeça de seu cansado pai. Vamos lá...

Conheci vários "eus" durante minha vida, filho. Estavam todos comigo! Vez ou outra, um "eu" específico tomava conta dos demais "eus" e eu seguia sendo mais esse ''eu'' do que outros, como se dentro de mim houvesse sempre uma disputa de vários estágios de "eus" diferentes que queriam dominar a tudo dentro de mim... Nesses cenários de disputa, vários outros ''eus'' ficavam à espreita para poderem tomar conta de mim tão logo lhes fosse possível enquanto esse ou aquele outro ''eu'' virava protagonista por alguns dias, horas, semanas... Isso me fazia ter por vezes dias, horas e semanas bons ou, também, ruins. Dependia do "eu" que estava disponível para ser protagonista em mim.

Vivi sempre assim, filho: eu comigo e os ''comigos de mim" - tal qual Fernando Pessoa dizia de si mesmo. Por vezes, fui corajoso. Outras tantas vezes fui temeroso, cheio de neuroses e inseguranças. Em outras épocas fui um jovem de frases contundentes e cheio de si. Hoje, nem sou mais tão novo, mas também ainda não sou velho, filho. Sou hoje uma mistura talvez mais homogênea de todos os ''eus'' que fui e sou. Nem tão corajoso, nem tão medroso, nem tão cheio de si, nem tão descrente de minhas próprias capacidades e habilidades humanas. Isso, a bem dizer, é normal, filho. A trajetória da vida é de autoconhecimento, acima de tudo. Busque conhecer mais de si e dominar mais de si, sempre. Não passe a vida desconhecido de si mesmo. Tudo bem? Na sociedade dos tempos de seu pai, poucos são aqueles que se esmeram em se autoconhecer. Boa parte da sociedade contemporânea de seu pai está entretida em parecer algo mais do que em, de fato, ser algo. Isso é ruim e não leva a autoconhecimento nenhum.

De minha parte, sou um emaranhado de ''eus'' que tentam tomar espaço comigo, em mim! Tento fingir que tenho segurança e controle por sobre todos os ''eus'' que encontro dentro de meu ser, mas, não raro, fracasso e acabo caindo nas garras de um ''eu'' menos feliz e mais introspectivo que me coloca abaixo das expectativas que eu insisto em ter para mim mesmo. Nessas horas, o "eu'' corajoso que fui fica submerso num mar de metafísica e sonhos por serem conquistados, sem respostas e sem conquistas, mas sonhos esses que encontram-se presos aos tentáculos dos medos que crio e me consumo neles. Fico submerso, é fato, em vários momentos, sobre um amontoado de receios, medos, inseguranças e tristezas. O medo, filho, tem algum valor, mas a covardia nunca. Gandhi falava isso. Tenho para mim como uma verdade, mas confesso que não é incomum seu pai se deter por medos, sendo covarde. Não repita esse erro na sua vida, filho. Não seja, nesse aspecto, como seu pai. Vença sempre seus medos. Não se detenha sendo covarde diante da vida.

Em meio a isso tudo, o maior medo que tenho é de perder, de alguma forma, para mim mesmo nessa luta de "eus" dentro de mim e lutando comigo. Quem será a essência do "eu" maior que há em mim? Quem me domina: um "eu" frágil ou um "eu" dono de si? Ainda não sei ao certo. Pode ser que seu pai ainda seja jovem demais para ter a solução para esse mistério. Pode ser, entretanto, que eu esteja já velho demais e a conclusão já tenha passado diante de mim como um cavalo selado que eu não montei...

Pode ser que tudo acabe e seu pai morra sem conhecer o "eu" maior que há dentro dele ou a essência do "eu" que sou, filho. Mas, será que sou tão diferente dos outros nessa sociedade onde vivo que mal sabe o que quer? Não sei, filho. De minha parte, fico eu aqui comigo e com os "comigos de mim", enquanto tento preparar, contribuindo com a minha parte, um mundo melhor para você, querido filho. 

Até.

Esteja bem e forte, sempre. 

Abraço de seu pai,

P.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Carta número 4

Querido filho,

seu pai tem passado por um período muito nebuloso. Só hoje ele consegue ver o quanto já sofreu sem saber a origem dos seus sofrimentos. Filho: seu pai tem depressão!

Por anos e anos, seu pai sofreu com esse mal. Na atualidade do tempo de seu pai, enquanto escrevo, um em cada três cidadãos do meu mundo sofre desse mal que é chamado hoje: ''mal do século''. Seu pai não é um privilegiado nem um desprestigiado. É o ''um'' dos ''em cada três''. Não entenda mal.

Como foi que descobri isso, filho? Descobri nos tempos idos dos meus quinze a dezesseis anos de idade. Cheguei na época a ficar sete dias sem quase sair da cama. Passavam pensamentos péssimos de sofrimentos variados na cabeça de seu pai. Ele temia sofrer e ver seus amados sofrendo. Sofria demais por pensamentos enviesados que lhe vinham na cabeça sempre para o fazer sofrer. Naquela ocasião, ele precisou de antidepressivos, além de idas à terapia, recorrendo à ajuda de médiuns e passistas - seu pai é espírita, lembre-se! E consegui vencer naquela época esse mal. 

Fiquei longos quatro a cinco anos muito bem, percebo. Conseguia ignorar pensamentos ruins e tinha uma enorme fé de que tudo daria certo, sabe? Isso é essencial. Ter um ''capacete de esperança'' te protegendo dos ataques da lida, sabe? É uma metáfora boa, não? Ela foi cunhada em um texto do livro ''Fonte Viva'', ditado por Emmanuel ao médium Chico. Acho que você deveria guardar esse livro. Se quiser, o leia.

Relembro os tempos idos até meus vinte e poucos anos e não encontro males como os que havia sido vitimado antes. Porém, não sei quando, nem sei bem o porque, mas comecei a ser atormentado gradativamente pela falta de esperança e sensações de desesperança, creio eu, a partir dos meus vinte e três a vinte e quatro anos. E, com toda certeza, a partir dos seus vinte e cinco anos seu pai estava de novo adoecido. Mas não consegui perceber isso. Fui vivendo, tendo amizades, relacionamentos, compromissos e combates adoecido. Fui vencendo a vida dia após dia carregando um fardo que eu não valorizei a ponto de me entender doente e precisando de ajuda.

Quando estava com meus vinte e sete anos, tive talvez o pior momento da minha vida. Estando mal, triste sem uma causa evidente, sem esperanças para nada, desconfiando de que o mundo era um imenso cenário de maldades, barbárie e desesperança, cheguei a ficar trinta e dois dias sem sair de casa. Antes disso, como eu já trabalhava, larguei meus empregos e comecei a ficar só em casa. Acho que foi um erro enorme. Vejo hoje. Deixei a cabeça ser atormentada vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, por pensamentos e sensações ruins, afinal: eu não usava mais minha cognição e minhas aptidões para nada a não ser ficar em casa pensando. E caí! Caí feio,

Quando me reergui, achei que estava bem, mas não. Estava apenas ''de pé'', digamos assim. Fiz besteiras em cima de besteiras. Briguei com pessoas. Eu andava muito irritado e inquieto. Sem perceber, culpava tudo e todos de meus males. Achava que ninguém merecia minha confiança nem meu amor. Achei que o amor não existia. Achei que esperança era algo que contavam às crianças para que não desanimassem diante de seus medos. E eu mesmo desanimei.

Como estava ''de pé'', todos passaram a ver o que era mais fácil: ''ele está bem melhor agora!'', diziam. Mas eu sabia que não, embora tentasse fingir-me forte. Inclusive, para raras pessoas contei que havia ficado os tais trinta e dois dias sem sair de casa. Seu pai tinha vergonha e medos de falar de si mesmo. Achava que me tornaria vulnerável aos olhos alheios? Acho que pode ser isso. Mas nunca saberei os motivos.

Seu pai então entrou na profissão dele de cabeça. Tentou dedicar-se especializando-se e estudando. Mantinha um funcionamento razoável. Uma proficiência significativa a ponto de conseguir algum carinho e atenção de chefes e colegas, mas comecei de novo a me perder e a enfraquecer. Faltei dias de trabalho. Tive de contar com a tolerância e paciência de colegas e chefes. Mas enfrentei e venci. Formei-me especialista - a duras penas, sei bem. Contei com o apoio de chefes, colegas e de Deus - sei bem. Pois fui forte de maneira que só hoje consigo enxergar. Mas segui ainda sem dar créditos suficientes à necessidade de tratamento.

Não pense que seu pai não procurou ajuda. Sim, seu pai era muito orgulhoso, mas não tanto. Procurou uma meia dúzia de profissionais de psicologia ou psiquiatria, mas nunca com sorte. Ninguém o tocava a ponto de fazê-lo pensar o mundo e a vida de forma diferente. Ele ia sofrendo e tomando remédios. Entregou-se, inclusive, ao álcool e aos cigarros de tabaco, sabe? Infelizmente seu pai sofria demais e não sabia os porques, nem conseguia achar melhora ou cura. E segui caminhando até que, formado, especialista já, retornou aos trabalhos de forma quase desacreditada. Eu trabalhava no máximo dois dias por semana. Algumas semanas conseguiu trabalhar três dias, mas nunca mais que isso. Via que não conseguia ir bem o quanto eu queria ir e me decepcionava. Seu pai sempre cobrou muito de si mesmo. Isso me fazia sofrer.

Resolveu voltar para a cidade onde nasceu. Foi trabalhar perto dos pais e amigos achando que conseguiria encontrar rumos novos e bom ânimo, mas não conseguiu. Falhou nisso. Tão mal se sentia, largou tudo. Voltou para a capital e ficou sem trabalhar por quatro meses. Sem receber salários, sem trabalhar, triste e cabisbaixo, tinha que contar com o máximo de paciência de todos em volta - mas nem todos conseguiam ver o quão mal seu pai estava. De fato, seu pai sempre tentava fingir ao máximo que conseguia que estava bem. Ele enganava a muitos assim.

Quatro meses sem trabalhar, chegava a ficar dias sem colocar os pés para fora de casa. Não gostava de receber pessoas. Não gostava de nada. Queria sempre estar sozinho e jogado na cama ou no sofá. Sentia pena e ódio de si mesmo, ao mesmo tempo. Mas não tinha forças para acreditar em si e mudar em definitivo, colocando um novo rumo à sua vida. E olha que ele planejava mudar de casa, construir um lar e até ter um cachorro, mas todos os sonhos passavam apenas como devaneios. Para seu mal, seu pai acreditou que não conseguia mudar em nada sua vida. 

Ao longo de todo esse tempo, já algo em torno de cinco a seis anos de doença continuada, seu pai pensou em se matar diversas vezes. Pensava em como fazer isso, mas sabia o quanto destruiria seus avós. Daí, tentava mudar de pensamentos, mas a vontade vinha diariamente por períodos longos. Não raras vezes, ele arriscou-se correndo de automóvel nas estradas ou saindo tarde da noite sem rumos para caminhar. Se morresse por ''acidente'', seria uma solução - eu pensava. E assim seu pai foi vivendo.

Somente quando completara trinta anos foi que conseguiu a sorte de, através da indicação de um amigo, ir a um psiquiatra que fez toda uma abordagem diferenciada em medicações e orientações. Seu pai, enfim, conseguiu sentir-se bem. Sob medicações, mas sentia-se bem. Começou a trabalhar. Chegou a trabalhar por 4 dias seguidos, semanalmente. Agradecia estar trabalhando ''tudo aquilo''. Voltou a sentir-se orgulhoso de si, com alguma autoestima. Pronto! Tudo parecia caminhar para uma cura eventual ou um longo período de felicidade, mas a vida deu uma rasteira em seu pai. A pessoa em que ele dividia a vida, confidências e mais confiava que não o machucaria nunca: o machucou! E ele caiu. Caiu feio. E, depois disso: eis seu pai aqui escrevendo.

Então, filho, peço-te: em seu tempo, observe as pessoas e a si mesmo. Não deixe tristezas contínuas passarem como ''normais''. Não! Normal é estar feliz, trabalhando, brincando com amigos, sorrindo em bares e restaurantes ou praças públicas. Anormal é estar em casa sem querer ver ninguém ou coisa alguma.

Ouça bem o seu pai: nunca tema medicações quando estiver doente. E entenda medicações como toda forma de ajuda que te ''prescreverem''. Entenda isso desde a pílula qualquer que deve ser tomada ao seu respectivo horário, mas também aos exercícios de autoconhecimento a que as filosofias religiosas se prestam. 

Ame muito as pessoas, mas nunca crie expectativas. Tente confiar, filho, em todos. Mas não seja tolo como seu pai. Tentando ser bom e ético, confiei sempre nas pessoas, demais, confiando que todas exigiriam de si o máximo para que nunca machucassem ninguém. Mas boa parte das pessoas ainda não pensa nos outros ou no todo num primeiro momento. Boa parte opta por pensar primeiramente em si (não raro, pensam unicamente em si). Mas esse é o jeito que essas pessoas têm de agir. Então: não as culpe, mas nunca se deixe ser igual a elas. Magoar alguém é terrível, filho. Não se permita fazer isso nunca. Se, por um acaso ou um azar de desatenção, um dia você cometer um erro que marque alguém, peça perdão e entenda seu erro, o assuma e aprenda com ele para nunca mais errar. 

São as palavras que, hoje, seu pai tem para te passar. 

Espero que estejas bem, onde estiveres.

Amo você; não se esqueça de seu pai - mesmo ele sendo tão patético aos olhos de tantos. Combinado?

Deixo aqui um sorriso e meu abraço, com um beijo de todo o amor que tenho para você.

P.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Carta número 3

Querido filho,

Cá estou eu, seu pai, novamente sem entender o tempo meu. Fico feliz pelo fato de ainda não teres nascido. Eu sofreria ainda mais se soubesse que você já estava exposto aos dias meus.

Hoje, filho, acordei e fui ler os jornais. Sim, ainda leio jornais. Não trago mais tanto prazer nisso, mas desconfio que ainda é importante. A mídia, seja impressa ou outra forma dela, nos dias meus, é horrenda. Vendida, sabes? Tu te tornarás sábio, filho, se desde cedo souberes entender as influências do dinheiro e do poder, das corporações e seus interesses, na opinião alheia. Não é diferente na opinião dos jornalistas ou aqueles que se dizem assim.

Seu pai, querido filho, vive em dias estranhos. Pode ser que todos os pais que até hoje existiram achavam que seus respectivos tempos eram o pior possível, mas quem sou eu para sabê-lo? Sei apenas que o tempo meu é péssimo e em tanto me assusta.

Voltando ao fato de seu pai ter lido os jornais, a primeira página já insinuava que algo podre estaria ali dentro. Sim! Uma cobertura somente voltada às catástrofes, às desgraças (não fale essa palavra quando fores grande, muito menos quando pequeno - sua mãe não irá gostar). Aparentemente, nos tempos de seu pai, o sofrimento dá dinheiro para muita gente. Raras são menções a coisas boas, pessoas de bem. Algo assim. Aparentemente também seria preciso comprar um espaço nos jornais para divulgar coisas boas, mas seria caro, não concorda? Acho que seu pai não conseguiria. Não há, é fato, muito interesse pelo bem nesses tempos, filho. Perdão por seu pai não conseguir fazer algo diante dessa realidade.

No mais, meu filho, quando fores dormir, ore. Ore sempre. Por mais que não saibamos se há algo etéreo, metafísico, algo assim, aquilo que chamamos de Deus, entenda: há necessidade dEle existir. Por qual motivo haveria de, do nada, tudo existir e termos atingido esse estágio de aprendizado tão atroz, sem propósito? Creio que estamos numa escola e que esses tempos de iniquidades são parte de um ensinamento que não conseguimos entender ainda. Então, peço, filho: ore sempre.

Estarei sempre orando por ti. 

Beijos e abraços do teu pai que desde já o ama tanto.

P.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carta número 2

Querido filho,

Perdão ter passado tanto tempo sem escrever. De forma alguma foi por esquecimento ou desleixo. Não. Seu pai simplesmente esteve muito adoentado. Ainda estou doente, mas por ora meu estado me permite escrever coisas e destiná-las a você.

Espero que o mundo para além dos dias de seu pai se torne melhor, filho. Deus, se por acaso foi Ele quem criou tudo, acho que deveria ter trabalhado também no sétimo dia. Dizem que descansou... Não sei bem, pois seu pai não é um devoto, filho, porém afirmam com certeza que Deus descansou no sétimo dia após trabalhar por ininterruptos seis dias anteriores. Será que esse momento de deleite ao ócio foi momento em que o tal diabo aproveitou-se para adoentar a crianção de Deus?

Não consigo entender como, em sendo o homem imagem e semelhança dEle, poderiam os homens serem tão maus, cruéis... Pode sim ter havido interferência do diabo no tal sétimo dia, filho. Quem sabe, nos seus dias pela Terra, já tenham descoberto mais sobre essa minha teoria?

Filho, seja bom, acima de tudo! Pense sempre se o que vier a fazer está ou não a causar prejuízos a outrem. Caso haja prejuízos assim, abstenha-se de agir. Espere momento ou oportunidade outra de escolha. Nunca prejudique quem quer que seja, filho. Seu pai pode sim ter errado muitas vezes, mas não quero que repita meus erros ou os erros daqueles que são da geração de seu pai. Opte sempre pelo bem seu, mas ladeado ao bem alheio - o bem total, social, a bem dizer. Se for rico em matéria, divida suas riquezas com quantas pessoas você consiga. Se for sábio, divida seus conhecimentos. Se for alguém satisfeito quanto à tua fome, divida teu pão. Mesmo se for um ser solitário, divida sua companhia - não poderia deixar de dizer isso também. Seu pai tem sido muito solitário. Isso não causa bem algum. Mas você poderá fazer diferente.

Já tentei estar presente junto de pessoas para as quais eu me julgava importante, mas não o era. Numa espécie ingênua de carência, filho, fui apenas útil fazendo da minha doação um pedido desesperado por ser amado. Seja importante, filho, mas não aceite ser apenas útil. Você merece tudo de melhor e sei que dará todo o seu máximo para ser verdadeira companhia na solidão (e escuridão) em que as pessoas do mundo se encontram.

Filho, o homem é, antes de tudo, um ser social. Precisa de outros rostos, vozes, sorrisos e lágrimas ao seu redor para seguir são e salvo. Não permita-se à solidão, criança. Ela traz desesperança - e a desesperança pode te levar irremediavelmente à ela. Permita-se, sim, ausentar-se da presença alheia por vezes, mas volte, sempre volte. Nunca insista em estar só, pois, assim estando, estará parado no tempo. Caminha mais quem tem outros por seguir ou segui-lo. Ver mais alguém que, de fato, esteja dedicado a estar do nosso lado é algo motivador e, sim: é muito importante que você encontre pessoas que te façam sentir assim e que as faça sentir assim também, tenho certeza. Dê atenção à influência que causes e que te causam, criança. Saiba diferenciar utilidade de importância. O que de fato é importante, assim o é sem necessidade de explicações. Tantas vezes parece inútil. Mas fique isso para outro momento.

Ademais, seja feliz e faça felizes seus próximos. E até breve, filho.

Beijos do teu pai que, mesmo sem conhecê-lo, tanto te ama.

P.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Carta número 1

Querido filho,

Hoje acordei sem muitas esperanças. Sim! Pode ser que contem a você o quanto os dias de seu pai são difíceis. De fato, não quero enganá-lo: o são! As pessoas dos dias de hoje são demasiadamente egoístas, habituadas a serem hipócritas. Ostentam uma personalidade boa, um poder, um estado social que na imensa maioria das vezes não correspondem à realidade. Filho, fico feliz que não tenha nascido ainda!

Após levantar da cama, lembrei-me de um cartunista muito genial, argentino, Joaquín Salvador. Seu apelido e sua assinatura da obra eram dados por: "Quino". Um personagem seu, imensamente genial como ele próprio, chama-se Mafalda. Uma menininha que adora refletir sobre o mundo. Estou resumindo, entenda... Ela acorda um dia e afirma que por vezes é difícil acordar e "descer ao mundo". Sim, filho! Por vezes tem sido assim. Espero que no dia em que estiver adulto, as coisas sejam lindas como sonho para você. 

O mundo de paz, harmonia, gentilezas e amor, ou seja: o mundo feliz que sonhamos hoje, sonharam ontem e creio ainda será nosso sonho, não nos chegou, filho. É difícil, mas tenho que te contar: seu pai, assim como os outros anteriores e atuais a ele, falhou. Tenho errado, filho! Há tantas coisas por fazer. Tanto a melhorar, mas não tenho conseguido construir o mundo adequado a você. Por favor, não se zangue, mas estou lutando, dando meu melhor - mas, confesso, estou muito aquém e o mundo não vai bem...

No mais, filho, esse é nosso primeiro contato.

Espero poder conversar mais vezes, muitas vezes com você.

Ansioso pelo amanhã, despeço-me de você e deixo cá meus beijos, filho.

P.